Bestiário Afetivo

Eu acredito em um universo movido à energia, e não só a da luz ou dos ventos, mas a dos pensamentos, dos sentimentos, das emoções. Tudo aquilo que nos faz vibrar nas mais diversas frequências coabita em nós. Nesse vai e vem de energias eu partilho (e talvez você também) de um multiverso simbiótico com seres que emergem das nossas experiências coletivas e individuais, conscientes e inconscientes.
Eis a minha pequena coleção de fadas, o meu Bestiário Afetivo.

As fadas que aqui seguem logo abaixo são desenhadas em papel canson com canetas nanquim e marcadores permanentes, seguindo um processo de desenho intuitivo e uma metodologia que eu criei adequando às minhas necessidades e que faz sentido pra mim.


Fada do Não

A Fada do Não anda sempre de braços cruzados, protegendo e apertando forte o que a gente traz guardadinho dentro do peito.  Ela aparece quando a gente diz não praquilo que quer entrar e pode acabar bagunçando tudo, um amor (bandido ou não), uma proposta de trabalho que pode parecer maior que nossa coragem de encarar o desafio, um cachorrinho doente  no caminho pro mercado.
Pois se ela não quer deixar entrar, também não quer deixar sair nada, permanece agarradinha, fechada mesmo. Sendo assim, não é de se estranhar dela aparecer sisuda e contraída quando surge uma ordem de despejo pra alguma coisa que mora no nosso coração, uma dorzinha que já fez raiz lá dentro, um nó meio desatado, aquela camiseta que a gente nunca usou mas continua no fundo do armário.


Fada Fomeira

Essa fada altera sua natureza quando baixam os níveis de glicose. Ela surge aos primeiros sinais de barriga roncando e se transforma de uma criatura dócil em um ser violentamente fomeiro.
Em alguns casos ela vem acompanhada de forte irritabilidade, olhos vidrados, movimentos desconexos e um enorme apreço por balinhas do uber.
Mas a proximidade com lasanha bolonhesa ou às primeiras mordidas de um suculento bife a parmegiana devolvem a criatura sorridente e amável que é a Fada Fomeira… longe da fome.


Fada dos Enlaços

A Fada dos Enlaços tece os delicados fios invisíveis que nos ligam uns aos outros. Esses fios energéticos entrelaçam-se formando tecidos, nós cegos e bordados junto aos fios das fadinhas tecedoiras de quem escolhemos nos re.lacionar.
Muitas vezes os fios são esticados fortemente testando a firmeza da trama, em outras formam laços consistentes como nós de marinheiros, resistentes e duradouros. Há os casos em que  os fios tomam caminhos diferentes, seguindo outros rumos com outros enlaces, e há também as pontas soltas, os finzinhos de meada a espera de arremate.


Fada do acabrunhamento

Essa fada surge como um nó na garganta, um aperto vazio, ombros pesados e caídos. Ao chegar nos transforma num tatu bolinha espremido no canto do sofá. Geralmente ela vem acompanhada de lenços de papel, músicas melancólicas e filmezinhos deprê.
Mas é possível apequená-la (ou confortá-la) com abraços quentinhos e comidinhas reconfortantes, casos mais severos podem precisar de vinho ou de alguma outra bebida alcoólica.


Fada Flow

Essa é a fada daquele momento mágico em que tudo flui, tudo corre como deveria, nossa cabecinha junto ao nosso corpo bailam em harmonia.
A Fada Flow é responsável por parar o tempo e sumir com a fome, a sede, a vontade de fazer pipi ou qualquer outra distração enquanto estamos na nossa melhor performance, melhor energia e maior concentração. Essa fada se alimenta de motivação, coração acelerado, olhos brilhantes e um propósito bem gorducho.
Nunca foi documentada sua aparição no passado nem no futuro, ela vive no presente, no aqui e no agora!


Fada da Hora de Parar

Essa fada faz hora extra em momentos de grandes mudanças, quando precisamos cortar velhos hábitos ou passar a tesoura em algum laço que não faz mais sentido.
Ela costuma passar bastante tempo a postos, com a tesoura na mão em prontidão, esperando o momento certo pro trabalho duro.
A trama do investimento emocional é apertadinha, os pontos são firmes, afinal com investimento de qualquer tipo não se brinca, sendo assim cortá-la exige uma decisão bem tomada, uma tesoura bem grande e braços fortes.


fada da vergonha

É a fada que vem junto com uma súbita vontade de sumir, de se tornar invisível de repente. Ela não vem por causa de algo que pode ser desfeito, mas sim por algo que se é, ou melhor, que se acredita que se é.
A Fada da Vergonha vem voando no eco do ego que sussurra… você não é bom o bastante… você poderia ser bem mais corajoso… você deveria ser muito mais bem sucedido… Essa fada vive no vale irreal da perfeição, um lugar ilusório em que algumas vezes acreditamos que deveria ser o nosso lar. Quando isso ocorre ela migra desse vale sinistro para ruborizar nossas bochechas.


Fada da Solidão

Ela mora no finzinho de um longo e escuro túnel, no oco. Apesar de pequenina, essa fada carrega asas enormes, quando tem de abri-las tudo ao redor escurece e toma a forma de seu lar, oco. Oco é só um vazio qualquer cheio de nada que abriga a solidão.
Às vezes mal se pode vê-la, pois a danada também possui a habilidade de se esconder nos lugares mais movimentados, à luz do dia e no meio de todo mundo e, ao contrário do que se costuma presumir, não só na taça do vinho escuro e na lágrima tingida de rímel.


FAda Ancoradoura

A Fada Ancoradoura possui longos cabelos que se enroscam nas decisões não tomadas, nas distrações que fogem do presente e nas ideias sem ações.
Ela aparece quando apertamos o botão do elevador do mesmo andar em que já estamos, quando continuamos em um relacionamento que já sabemos que acabou, ou então quando comemos aquele irresistível pão francês quentinho mesmo sabendo que glúten acaba com a gente.
Essa fada se alimenta dos passos que não damos na direção dos nossos sonhos e dos hábitos não virtuosos. Seus cabelos crescem e se emaranham com mais afinco toda vez que nos rendemos às distrações e escolhemos o bauru com bastante maionese ao invés da aula de dança e o sonho do palco.


Fada Guarda.dores

Essa é aquela fada que gosta de colecionar incômodos emocionais, tem apego aos espinhos que nos feriram e as dores que não deixamos ir embora.
A Fada Guarda.dores mora num lugar tortuoso da memória, um cantinho sombrio que visitamos quando precisamos nos sentir seguros nas mágoas já conhecidas, nos calos que já sabemos onde apertam.
Ela surge toda vez que batemos o dedo minguinho naquela mesma mesinha, mas nunca trocamos ela de lugar só pra continuar reclamando. Ou então quando encontramos alguém querido, mas nunca perdemos a chance de tocar naquele assunto doloroso do passado. A fada também aparece triunfante quando revivemos mentalmente em looping uma conversa chata que já poderia ter sido encaminhada pro nosso spam mental.


Fada do Perdão

Ela fada é uma desaprisionadora de energias velhas, o seu trabalho é deixar ir embora as picuinhas e desatar os nós das mágoas liberando espaço pra que novas energias nos encontrem.
A Fada do Perdão aparece toda vez que percebemos que o passado é uma história já escrita e que não aceita vírgulas nem adendos, por isso não há motivos pra ficar relendo-a.
Sua missão é soltar as energias densas que ficam tensionando as relações e algumas vezes segurando relações que já poderiam ter sido desfeitas.
Quando a gente deixa pra lá o colega que comeu o último pedaço de bolo de chocolate da tpm, o ex que te sacaneou ou o crush que passou o encontro todo no celular um pacote de energia xexelenta é liberado no universo e pode ser transformado em infinitas coisas maravilhosas.


Fada Foguenta

Essa é daquelas tinhosas, que ficam mais atiçadas que nunca quando a lua tá estufada de tão cheia. A danadinha aparece ao mínimo sinal de uma troca de olhares mais demorada, beijinhos no pescoço do xodó ou aquela retirada de camisa em câmera lenta num dia de calor.
A Fada Foguenta vem nas ondas de calorões que se movimentam pelo corpo todo, seguidos de coceirinha insistente no baixo ventre. Ela só completa sua missão depois de enorme êxtase acompanhado de suspiros e pele boa. Ai, ai…


Fada dos Abraços Faltantes

Ela possui longos braços e pernas sedentos por enroscarem-se, por ficarem quentinhos e enlaçados em outros longos e aconchegantes braços e pernas.
A Fada dos Abraços Faltantes habita aqueles momentos em que tudo o que mais queremos é um chamego, que nossa vontade consegue até ouvir outro coração batendo pertinho, mas ainda assim não é possível sentir o seu calor, o quentinho do abraço ausente.


Fada da Meninice Passarinha

É a fada que faz casa pra nossa criança que não se perdeu no vôo, aquela que retorna toda vez que nos entregamos ao encantamento das coisas simples, que pula corda, canta versinhos e vibra com uma guloseima perdida no fundo da bolsa.
Essa fada surge nos momentos em que o nosso olho brilha de forma genuína, em que a luz do nosso peito ilumina tudo ao redor, quando temos certeza de que a nossa essência está sendo honrada.
É o dedo no prato pra pegar todo restinho da cobertura do bolo, é a chuva de verão na pele que dá vontade de pisar em todas as poças, são os sonhos que nunca perdem suas asas nem a vontade de voar.
Ela é a fada perfeita pra conversarmos quando estamos com dúvida de que caminho seguir ou quando achamos que as respostas estão em algum lugar fora de nós. Já temos tudo o que precisamos em nossa meninice alada capaz de nos levar pra onde nossos sonhos moram.


Fada Estamina

A Fada Estamina é daquelas faca na bota mesmo! Ela aparece naqueles momentos em que a gente tá quase terminando de lavar a louça e quer parar pra ver uma série faltando só dois copos sujos. Ou então quando sentimos que não vamos aguentar os últimos dois quilômetros depois de correr toda uma maratona. Ela surge como uma sargentona naquela madrugada sombria e fria que antecede a entrega de um projeto que tem tudo pra nos deixar cheios de orgulho e o travesseiro parece mais macio que nunca.
É aquela fada que grita no nosso ouvido quando a coisa aperta e a gente pensa em desistir. Aquela que segura na nossa mão até cruzar a linha de chegada, pra quem não há tempo ruim nem situação desfavorável, só oportunidades.
Ela é nossa melhor amiga, quem dá uma mãozinha pra mostrar a que viemos, nosso melhor trabalho, nossa melhor versão.


Fada Limpa.dores

Essa fada lida com coisa barra pesada, trash mesmo, ela tira a poeira ardida e pesada das nossas memórias, ela esfrega os cantinhos incrustados de dor da nossa história.
A Fada Limpa.dores mora naquela parte do coração que quer ser livre e viver na paz e na amorosidade, mas as histórias que carregamos ainda estão muito contaminada com memórias emocionais tóxicas e bolorentas.
Ela atua limpando a casa pra que possamos receber novas memórias brilhantes, iluminadas e coloridas pra enfeitar o livro divertido e mágico da nossa vida.


Fada da Leveza

Ela é uma fada mágica especialista em levitação de perrengues incomodativos. Ela transforma aquelas situações que sobrecarregam os ombros de tão pesadas em apenas pequenos incômodos que podem ser carregados facilmente em malinhas de mão.
A Fada da Leveza surfa naquelas grandes ondas que vêm vindo com força prestes a se transformarem em tsunamis e as reduz a jacarezinhos da beira da praia que a gente levanta rindo e arrumando o cabelo.
Ela aparece linda e leve quando conseguimos dar mais bola pra música da rádio que pro buzinaço no meio do congestionamento. Ou quando escolhemos respirar fundo pra desamassar as ruguinhas da testa quando um assunto parece mais polêmico do que gente gostaria.


Fada Imperfeitina

A dona das assimetrias, rainha dos embaraços do corretor ortográfico. Ela é o terror dos cricris de cabelo perfeitamente arrumado em dia de ventania, ameaça mor dos que não aguentam um pelinho de cachorro grudado na calça.
A Dona Imperfeitina chega zunindo suas asinhas desparelhas quando a perfeição de uma linha reta sendo traçada vira um eletrocardiograma com o susto de uma porta batendo. Ah… aquela pequena linha solta na barra da calça, na tentativa de acabar com aquele sofrimento um breve puxãozinho e tá feito o desatino de uma costura inteira desfeita.
Essa fada vê graça naquela sobrancelha que é um pouquinho mais levantada que a outra, naquela leve pancinha cultivada por momentos de alegria com vinho, massa a carbonara e amigos, na rachadurinha da cuia do mate, naquela lasquinha do esmalte que se perdeu em alguma quina.
Ela é responsável pelas interessâncias pessoais, pelos detalhes únicos e verdadeiros, mas que às vezes, por não entender a mágica dela, queremos esconder.


Fada das Porções Suficientes

Ela é uma fada opulenta, abundante.
É a fada da certeza das necessidades atendidas, que nos conecta com aquela parte do universo onde todos recursos de todas as naturezas são infinitos. Felicidade, amor, ar puro, harmonia, prosperidade, ideias, comidinhas, amparo, enfim, a Fada das Porções Suficientes é a ponte entre nossa luzinha interna e tudo o que há de melhor e farto a ser iluminado no universo.


Fada do Apaixonamento

Ela mora na covinha da bochecha formada por sorrisos insistentes de olhos brilhantes. Ela faz levitar, embonitar, divertir. Riso frouxo e vontades urgentes.
Quando se une a Fada dos Enlaços os corações só dormem tranquilos quando entrelaçados em conchinha. Isso quando, enfim, o sono se faz necessário, afinal há tantos detalhes, matizes e cantinhos que o apaixonamento urge percorrer.
Essa fada vem acompanhada de suspiros, poeminhas clichês e do cheirinho do abraço quente lembrado. E o coração… Ah, esse vive seus dias de descompasso desmedido buscando ritmar-se em dueto. Pois, como diz Bukowski, o amor é pros que aguentam a sobrecarga psíquica, já eu digo que isso é paixão!


Fada do Sim

Ao contrário da Fada do Não, a Fada do Sim tem o espírito livre pras novas possibilidades. Sem o assombro do que pode dar errado, ela transforma “talvezes” em “sins”.
Sim, eu mereço. Sim, eu posso. Sim, eu quero e consigo. Sim, sou livre. Sim, eu amo e espalho amor. Sim, sim, sim.
Ela surge quando aceitamos com coração aberto as magias que o universo nos presenteia e temos a certeza de sermos merecedores dessas graças. Ela transforma espinhos em flores, sementes em flores, ideias em projetos, projetos em mudança, em amor, em luz.
Sim para a melhor versão de nós mesmos.

 

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